15 de agosto de 2025

As guerras comerciais afetam o meio ambiente e a transição para energias renováveis. Entenda como disputas globais influenciam o clima e quais são as possíveis soluções.
Disputas comerciais moldaram a economia global ao longo dos séculos, afetando não apenas mercados e indústrias, mas também questões ambientais. No cenário atual, essas tensões influenciam diretamente os esforços globais para combater as mudanças climáticas e acelerar a transição para as energias renováveis. Este artigo examina como rivalidades econômicas impactam políticas ambientais, o desenvolvimento de tecnologias limpas e a segurança de recursos essenciais para a transição energética.
Disputas entre grandes economias podem dificultar a implementação de tecnologias sustentáveis, aumentar a dependência de combustíveis fósseis e comprometer acordos internacionais para mitigar as mudanças climáticas. Nos últimos dois anos, autoridades reforçaram controles de exportação sobre insumos-chave (por exemplo, grafite e ímãs de terras raras), e grandes mercados impuseram medidas comerciais a produtos de tecnologia limpa — ações que podem elevar os custos e atrasar cronogramas de implantação.
A China ainda domina a produção e o processamento de vários minerais críticos e componentes essenciais para veículos elétricos (VE), turbinas eólicas e solar. Em abril de 2025, Pequim introduziu novas regras de licenciamento de exportações para múltiplos produtos de terras raras e apertou a vigilância sobre a cadeia de suprimento de ímãs (incluindo um sistema de rastreamento de transações), movimentos que já afetaram compradores no exterior. Rodadas anteriores de controles abrangeram o grafite (desde outubro de 2023) e outros materiais estratégicos.
Do lado da demanda, a disputa UE–China no setor de VE mostra como as fricções no comércio de tecnologias verdes podem transbordar globalmente: Bruxelas impôs direitos antissubsídio definitivos sobre veículos elétricos a bateria (BEV) fabricados na China e, em 2025, abriu conversas com Pequim sobre compromissos de preço mínimo para estabilizar o mercado.
Nos Estados Unidos, o Departamento de Comércio emitiu determinações finais de direitos antidumping (AD) e compensatórios (CVD) em abril de 2025 sobre células/módulos solares vindos de Camboja, Malásia, Tailândia e Vietnã — rotas usadas por muitos fornecedores para atender ao mercado norte-americano —, criando ventos contrários no curto prazo para desenvolvedores de projetos.
Medidas da UE adotadas desde 2022 reduziram drasticamente os fluxos de energia russos: as importações de carvão terminaram em agosto de 2022, e o petróleo bruto russo caiu de 27% das importações da UE em 2021 para cerca de 3% em meados de 2025. Em julho de 2025, a UE aprovou seu 18º pacote de sanções com foco em energia e concordou com mudanças para reforçar o teto de preços do petróleo (incluindo a redução para US$ 47,60 por barril, com vigência a partir de 3 de setembro de 2025), fortalecendo os incentivos à diversificação e à aceleração das energias limpas. Alguns Estados-membros reativaram temporariamente usinas a carvão durante a crise do gás, mas muitas dessas unidades agora estão sendo desligadas e os planos de eliminação gradual voltaram aos trilhos.
Mudanças de política continuam a remodelar o lítio na região:
A expansão das renováveis exige um suprimento crescente de minerais como lítio, cobalto, níquel, cobre e terras raras. O Global Critical Minerals Outlook 2025 da AIE projeta que, até 2040 (cenário STEPS — Políticas Declaradas), a demanda por lítio cresça cerca de 5×; grafite e níquel aproximadamente dobrem; e a demanda por cobre aumente em cerca de 30%, evidenciando a escala de investimento a montante e de reciclagem necessária. Ao mesmo tempo, a pegada ambiental da mineração sofre escrutínio mais intenso. O PNUMA e o Painel Internacional de Recursos (Global Resources Outlook 2024) alertam que a extração e o processamento provocam perdas significativas de biodiversidade, estresse hídrico e poluição, pedindo salvaguardas mais rigorosas em toda a cadeia.
Apesar das fricções, a China consolidou liderança na manufatura de tecnologias limpas:
A OMC segue como foro para alinhar clima e comércio. Em 2025, a Semana de Comércio e Meio Ambiente focou em precificação de carbono, circularidade e combustíveis sustentáveis, complementando o programa de trabalho do TESSD (Discussões Estruturadas sobre Comércio e Sustentabilidade Ambiental), que apresentou documentos de resultados na MC13 (fev.–mar. de 2024). Um relatório conjunto da OMC com o FMI, a OCDE, a UNCTAD e o Banco Mundial explora abordagens coordenadas para precificação de carbono e transbordamentos de políticas — relevante para evitar a fragmentação do “comércio verde”.
Disputas comerciais e políticas ambientais são profundamente interconectadas, afetando o ritmo da transição energética e a estabilidade econômica global. Com diversificação direcionada, regras mais robustas de reciclagem e coordenação entre comércio e clima, os países podem reduzir os danos colaterais das rivalidades econômicas enquanto aceleram a mudança para uma economia de baixo carbono. Os movimentos mais recentes de políticas e mercado indicados acima mostram que esse alinhamento já está em curso — mas é a continuidade cooperativa e consistente que determinará a velocidade dessa transição.
Referências
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